quarta-feira, 15 de junho de 2011

Esquecimento

ESQUECIMENTO
Entrei em greve
de mim,
por tempo indeterminado;
estou fechado para balanço.
Tenho mil coisas para fazer
e não faço nada.

Tenho inúmeras contas a pagar,
tenho livros para ler que sequer vi a capa,
tenho um filho para criar (e o meu filho ainda nem nasceu),
tenho um poema maravilhoso para escrever
embora saiba que nunca escreverei.

Viajarei para longe,
longe da consciência,
longe dos problemas,
longe das injúrias,
longe de tudo o que me faz mal.

Quero um lugar onde eu possa esquecer um pouco de mim.

Medo

MEDO
Tenho muito medo
e esse medo me entorpece os sentidos,
me deixa estagnado
sem saber o que fazer.

Ah! Quanta vida deve existir além do arco-íris!
(mas ainda nem choveu...)
Quanta alegria eu encontraria no pôr-do-sol!
(mas no inverno tudo é cinza e frio...)

Tenho muito medo,
medo de mim e dos meus medos,
medo da possibilidade de sentir medo.

Hoje quero apenas o tédio e a melancolia,
quero a ilusão e a sombra de coqueiros falsos,
quero o torpor,
o sono,
o sumir-se,
quero
ser
sem
mim
no fim.

Vasto mundo vazio

VASTO MUNDO VAZIO
Deserto em mim.
Decerto estou seco.
Poeira e vento
espalham-me
por toda parte.

Saio,
finjo ser tudo,
menos eu mesmo.

Reparto-me
em cacos,
fatos.

Fecho os olhos,
acordo para mim,
sonho
insone.

Mosaico imperfeito,
muitos de mim
espalhados pelo chão.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

FACETAS
Desespero.
Desgovernado.
Qual o rumo?
Quais as ilusões?
Último versículo.
Rastros.
Mistérios.
Miséria da alma.

Eu recôndito em mim.
Impureza sem mácula.
Asas.
Voo.
Queda.
Escombros.
Erguer-se.
Facetas de mim.
Falácias.
Fauna humana.
Lágrimas.
Sem ar, sem mar.
Vácuo.
Vazio.
Nada.
Estigmatizado.
Pragmatizado.
Eu sem mim.
___________________________________________________________________________________

PARALISIA
Deixe-me aqui,
estou bem, sozinho,
na inquietude niilista,
entre a tempestade e a calmaria.

Imperpétuo,
flores brancas no altar da desordem.
Um sorriso de soslaio.
Uma foto não tirada,
um destino enganado.
Ledo engano.

Apague de mim,
memórias,
lembranças;
preciso esquecer
diários,
torturas,
maledicências
e falsas benevolências.

Infância tardia, retrógrada e bastarda
como ervas daninhas no cimento,
no coração descompassado,
na ilusão que cai
feito chuva.

Eis a vida,
triste acaso ocaionado,
ocaso,
sem testemunhas,
cataléptica,
epiléptica,
paralisia temporária
que me persegue no sono:
fantasmas de mim em mim.

Acordo sufocado.
Ainda vivo,
transpirando
de frio.
__________________________________________________________________________________


COMPLETUDE
Completo me sinto
diante de ti.
Pareço novo,
renovado,
apesar das marcas da vida
em mim.

Completo estou
pela tua presença,
magia
que devora
minha carne
revigora
meus sentidos.

Completo vivo,
metade da minha metade.
Ressuscitado,
libertado,
sou gaivota que singra
ares e mares
em direção
ao teu horizonte.

(Minha casa,
minha vida,
meu destino.)

Sou agora completo
onde estás.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ressurgir...

Estou aqui
no silêncio do quarto,
à meia-luz
que ofusca.

Resquícios do sol invernal
acariciando-me
bem de leve.

Momento de lucidez,
embora não me permita
abrir a janela.


Sem lágrimas
fecho os olhos,
entrego-me à doce ilusão ociosa.

Imerso em palavras e silêncio.

###################################################

Tempo de estio.
O coração plantou sonhos,

colheu apenas ilusões.

A alma consentiu,
o corpo traduziu-se
em sono e cansaço.

Tempo de amar.
Doce sorriso,
ressuscito.
 
Acordo renovado,
tenho vida em mim
absorto em ti.

Diante do teu olhar,
perco-me pelo ar,
vejo o mundo parar.


###################################################

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Raios-X da alma

Afago.
Memórias esquecidas.
Um longo tempo.
Alma enferrujada.

Das cinzas fez-se imóvel
a última quimera,
à sombra de prantos e ipês amarelos
que a luz desterra.

Impiedosa fera
que devora.
Ímpia doença
de outrora.

A um passo do arco-íris
a solidão produz imagens
que nada dizem -
abstração da alma tuberculosa.

Sufocado o grito,
o choro compulsivo
aprisionado no peito
sem efeito.

Morta a flor,
símbolo da dor;
bate à porta
a esperança morta.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Etérea ilusão desnuda
que a tudo inunda,
sobrevive a cada vã descrença.

Desgraça pós-moderna
que a ânsia de vômito revela
como sobrevida anêmica.

Preâmbulos,
pêsames,
pêndulos,
desalinho
e caos.

Tentação sob os véus,
cabala dos aflitos,
a cada esmola,
a cada migalha,
rebuscando a fala
muda e incômoda.

Em farrapos,
a agonia das horas
de um relógio parado.

O ar adocicado,
cheiro de morte,
o frio que congela a pele.

Escuro e nada.
As janelas batem com o vento,
murmúrios longínquos
martelam o inconsciente
a agonia insana,
demente.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Martírio em minh'alma
sedenta de vida.
Quero o eterno recomeçar
mesmo que fugaz,
na alvorada da insônia.

A alma indômita,
selvagem,
multiplica-se
em paródicas certezas
inverossímeis.

Fábula dos bandidos!
Retratação dos insubordinados!
Insultos glorificados!

Oh, vida insensata!
Renasceremos para o nada
na aurora que vaga
e infame nos cega.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Minha flor,
tens beleza e força,
disciplina e sinceridade.

Tens beijos que me enlouquecem,
tens o sorriso mais belo,
a doçura que emudece.

Ah! Quanto ainda temos juntos,
quanta vida,
quanta esperança,
quantos sonhos nos esperam
nesse trem da eternidade
que abarca o coração!...

Na experiência das borboletas,
voaremos assim,
libertos de juízo,
na essência apaixonada,
que brota em nosso jardim.
 
Ah! quanta vida,
quanta beleza -
efemeridade do eterno
que habita em nós!...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Algumas (des)inspirações da alma

As palavras gotejam,
tomam vida
pré-casulo.

A alma pueril
pastoril
de poeta
se manifesta.

A vida,
muito além da inspiração
envereda-se por aí,
nuvem em céu azul.

Possivelmente
ardo em febre e paixão,
por ter em mim
a magia
da poesia.

Doce invocação,
incansável peregrinação
a cada verso,
a cada rima desfeita
pela emoção
de poetar.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Sonho.
Transpiro mais que o normal.
O sono leve e inconstante.
A manhã fria acorda
e me acode
sem razão.

Levanto-me a duras penas.
Olho-me no espelho.
Não me reconheço.
Sou o mesmo, mas sou outro.

Envelheci?
Morri?
Decerto, não.

Porém, algo em mim mudou,
metamorfoseou-se.

Sou cópia perfeita de mim,
infância tardia,
retrocesso,
pesadelo juvenil.

Venço o medo,
a timidez.

Reinvento-me.
Tardo.
Escurecido em memórias,
fantasmas,
vazio.

Aglutino,
reparto-me.

O que sobra?
Eu.
Inteiro
em sonhos decepados.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Desfalece a última esperança.
O corpo cansado espera.
Ai de mim resistir
à minha própria vontade.

Perece a fina flor
em terra árida,
imoral.

Desterra o mito,
narciso
sem espelho.

Deduz.
Pondera.
Crianças na calçada.
Sirenes.
Para casa,
todos para casa.

Ficção em tempo real.
Vigie.
(Quem? Por quê? Onde?)
Minhas condolências
aos filhos da puta marginalizados
que fedem em seu peito murcho
não nascidos, escarrados.

Triste e belo destino.
Trocados.

O pão nosso de cada dia dai-nos hoje.
Caiamos em tentação.

Um grito.
Escuro.
Sangue.
Fodam-me - é o que ela grita,
com lágrimas de medo,
com o desejo prostituído,
com o hálito faminto,
sem passado, sem presente, sem futuro aparente,
sem glória, sem certo e errado.

E a ciranda continua girando viciosamente.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Eu sei.
Minha poesia não tem sabor,
minhas palavras são duras
e sem pudor.

Não são límpidas,
muito menos apaixonantes.

Meus ideais são mundanos.
Minhas ideologias, transgressoras.

Mas entendas, meu bem,
o amor transborda em mim
e em oferenda me faço teu.

Podes me provar,
podes me devorar,
podes fazer de mim
tudo o que quiseres.

Sou teu,
num laço eterno,
eterna primavera
a despontar diante de nós.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Reflexões da alma

Espectro triste de mim,
eu transfigurado,
estado da alma.

Ilusões infindas,
timidez incessante,
amarguras e agruras.

Dias que se repetam,
um arco-íris
em pleno inverno sem chuva.

Mais uma ilusão
ou são meus olhos de quimera
na madrugada febril como gelo?

Ultrapassado o limite
entre o real e o auto-sustentável,
sobrou o meu coração esquecido na estrada.

Sou um tolo, eu sei,
ouvindo tragédias e canções tristes
para me esquecer de mim.

Mas no fundo
é tudo uma forma
de me encontrar novamente.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§

Antes que a madrugada perca o brilho da aurora,
antes que o dia vire lixo sem motivo aparente,
perca-se na lápide dos sonhos tortos e esquecidos
sem uma flor jogada por amor ou amizade.

Quantos caminhos deixamos de percorrer
por medo e ausência de coragem,
esperança ou Deus...

Quantos deuses há em mim!...
Como eu poderia ser forte
sem os dogmas de minha criação tradicional.
Ah! quero os riscos, os pecados, o pecado original,
quero o mundano correndo em minhas veias!...

Quanta poesia há no sem saber do universo,
quanta quimera há no caminho largo,
quanto desejo se foi por insegurança!

Dói a vida em silêncio (que grita, que agoniza, que quer ser viva!),
uma vida que cose na cadeira de balanço no alpendre
esperando pelo pôr do sol que nunca se vai.
(É um dia que agoniza sem fim.)

Não, não, não, não...
Nunca se vai.
(Oh, infortúnios da solidão!)

§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§

Agenda tua morte,
mas antes rasga tuas cartas, teus escritos,
incinera teus pertences, tuas lembranças.

Vê que o tempo passa num segundo,
e as pegadas foram levadas pela ressaca,
pela ausência da benevolência...

Onde estou?
Jurei por Deus nunca mais perguntar,
mas nunca fui tão religioso assim.

Quero voar, ser levado pelo vento,
pelas lembranças,
perder-me de mim.

Quero a liberdade
dos escravos pós-abolição,
quero a virgindade do futuro impuro.

Calem as vozes na minha mente,
sosseguem no peito essa opressão,
amanhã virá o sol.

E se não voltar
o que faremos então?
Faremos da luz vida nova?

Ressurgiremos
após a tempestade inventada 
pela bruma leve da ilusão proibida.

§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§

Péssimo dia para se morrer de poesia,
para ficar num canto em solidão,
quando se pode inventar um céu,
inventar um Deus só para si.

Lágrimas são rios que logo secam
em olhos já incrédulos.
Sinto pena.
A mão trêmula.
As palavras que escapam,
vacilam,
duvidam de si,
fingem ser música,
ferem a alma.

A alma... ah! a alma!...
seca e amarrotada,
embalada pelos momentos vãos,
pelos imortais,
pelos poetas,
pelo consolo,
pelo abrigo,
pela maldição
de querer e não poder ser
poeta
e sua vida traduzir-se
em versos livres e brancos,
rebeldes,
libertos da austeridade
da métrica e dos ritmos.

Por isso sigo arrítmico,
errante por escolha,
anjo,
demônio,
vendaval
que destrói telhados
e cabelos de moças vaidosas.

Ah, sou alma e coração
a pulsar pelos ditosos descaminhos,
preso à minha alma gêmea,
único consolo pós-ventre,
âmago,
deusa,
anjo.

Oh, Deus!
Revela-te pela poesia,
liberta-me da agonia,
sem freios e teologia,
num culto pagão à flor.

A flor...
debilidade do poeta tuberculoso
em tempos pós-modernos.

A vida me sorri:
este é um grande dia.
Ergo-me capaz e renovado.
(Um avião sem direção cruzou o horizonte
em queda livre contra meu destino.
Ah! Quanta vida útil eu poderia ter sentido
em minhas entranhas!...)

Talvez amanhã
recolham-se os restos,
façam remendos
da vida.

Talvez amanhã
ou depois de amanhã
amanheça
(maldita agonia,
santa ansiedade),
num futuro do pretérito sem fim,
em mim.

sábado, 28 de maio de 2011

Alguns estados da alma em versos

A alma agoniza, sente medo...
Sonhos mortos pela estrada.
Sem inspiração, prossigo desanimado.

Cantos e contos pelos cantos.
Modernidade pós-moderna
em mim, em ti e em quantos mais de nós?

Sem triunfo, persisto,
insisto
mas a vida é uma grande piada.

**********************************************************************************

Acordei incrédulo,
ainda crente,
desfeito em amarras,
caótico
ou católico?

Cético contrito
em orações mundanas -
corpo,
seios,
pernas,
sexo,
anjo.

Vênus,
Virgem Maria,
devaneando em mim.

***********************************************************************************

Decerto fui várias almas.
Talvez eu não saiba ao certo
quem eu sou.
(Sou mesmo repetitivo em sentimentos.)

Estranho-me no espelho.
Desejo palavras mudas,
silêncios incômodos,
pecados e absolvição.

Estradas vadias,
lamaçal no jardim
de flores outrora vivas
(hoje mortas e enterradas em meu túmulo).

Sem graça
perpetuo quimeras,
esquecido até por mim
promovo a revolta nazista dos que foram esquecidos.

***********************************************************************************

Para mim, o tempo se fechou,
parou,
mudou de estação
e partiu.

Para mim, o frio ficou,
esmagou sóis e flores,
congelou meu coração
e me beijou com lábios de gelo.

Para a vida, mais que um vinho,
mais que um palavrão,
mas a taça quebrou
e a boca calou.

Para a vida, o embriagar-se de quimeras,
a morfina que enternece,
paliativo para a dor:
a própria dor.

***********************************************************************************

Não, não sei de nada.
Tenho certezas de que duvido.
Tenho um nome que já esqueci.
Tenho uma vida que não é minha.

Não, a porta bateu.
Fechei a janela por causa do vento.
Matei um inseto que entrara por engano.
Pensei em nada, e o nada se fez em mim.

Não, o telefone tocou e não atendi.
A campainha tocou e não atendi.
a morte me chamou e não atendi.
Fugi como quem foge de si.

Não, não tenho palavras agora.
Os mortos estão mortos na televisão.
E o coração desenganado?
E as mentiras que contamos?

Não, faça um favor para mim.
Esqueça quem eu fui e o que me tornei.
Abra a cabeça, feche a emoção.
Estamos longe de casa.

***********************************************************************************

Até que enfim escureceu
para me fazer clarear a alma
na solidão das palavras
que piscam como estrelas
hibernando.

Queira o vazio
e a canção que não para de tocar
num lugar distante
que ninguém sabe,
que ninguém entende.

Talvez seja a voz do silêncio,
a voz que ecoa do fundo do coração,
a voz da alma cansada,
a voz que implora,
que fenece.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Niilismo da Alma


O nada me consome.
Tenho sentido falta de tudo,
menos de mim.

Tenho feito planos impossíveis,
planos de morte,
planos de sonhos.

Tenho feito tudo errado,
tenho andado mais triste que de costume,
tenho me sentido vazio, oco.

A vida segue um rumo diferente do meu.
Estou na contramão
ou será que virei de costas para a vida?

Traí a minha própria confiança,
sou assim mesmo,
validade vencida.

As rosas no caminho morreram,
só tenho vontade de chorar
e esquecer quem eu sou.

(Paulo Avila - 26/02/2011)