quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Lembranças de Cássia - continuação do Capítulo III


Acordou com sua mãe sacudindo-a impaciente.
– O que você está fazendo a uma hora dessas fora do seu quarto, Cássia? Você não sabe que tem que ir para a cama cedo?
– Desculpe, mamãe...
– Desculpo coisa nenhuma. Não sei quem você puxou para ser assim tao imbecil e desobediente. Até parece que seu pai e eu nunca lhe demos educação.
Cássia abaixou a cabeça e chorou em silêncio, levantando-se lentamente.
– Já para o seu quarto, garota! Tive um dia maravilhoso e não será você quem irá estragar a minha alegria. Já para o quarto!
Cássia apressou-se em desaparecer das vistas da sua mãe, como um cãozinho de rua escorraçado.
Entrou no quarto e se deitou de bruços na cama, soluçando desolada. Era um estorvo, um empecilho à felicidade de seus pais. Uma coisa sem utilidade nenhuma. Além de tudo, iria mudar-se para um apartamento do outro lado da cidade e nunca mais veria seus amigos.
Sentia-se sozinha e abandonada. Não entendia por que seus pais não a amavam como deveriam. Nunca recebera deles um carinho, uma palavra amável, um gesto de afeição... Só se lembravam dela quando queriam agredi-la ou cobrá-la de alguma tarefa ou obrigação não realizada. Era opressor viver assim. Por que não podia ter uma família de verdade como as outras crianças que conhecia?
Era como se Cássia fosse uma invasora, uma estranha naquele lar hostil onde não havia pedido para nascer. Ela não escolhera aquela família. Ou será que escolhera e não se lembrava mais?
Se ao menos fosse adulta, talvez encontrasse respostas para tudo aquilo. Os adultos pareciam saber de tudo!
Mas não... Era apenas uma criança de nove anos de idade...
Não queria mais incomodar a vida de seus pais. Fugiria e eles nunca mais iriam vê-la. Levantou-se determinada, pegou sua mochila do colégio, tirou os livros e os cadernos, e pôs algumas roupas dentro. Iria para bem longe! Faria como as crianças que ela via na televisão: viveria nas ruas, dormiria debaixo das marquises e pediria esmolas para não morrer de fome. Não deveria ser tão ruim assim.
Saiu do quarto e espiou na sala: não havia ninguém. Tudo estava em silêncio. Decerto já deveriam estar dormindo.
Chegou até a porta que dava para a rua e a abriu. A noite estava belíssima: a lua cheia iluminava toda a rua e as estrelas piscavam alegremente, como se convidassem Cássia a sair.
Cássia sorriu para si mesma e saiu de casa. Andava sem direção, confiante por saber que em breve estaria bem longe e nunca mais a veriam. Após meia hora caminhando descobriu que estava perdida: não conhecia aquela rua escura e deserta em que se encontrava. Sentiu medo. E se aparecesse algum homem desconhecido e lhe fizesse mal? Embora fosse apenas uma criança, sabia bem que o mundo estava repleto de pessoas más.
Cachorros latiam ao longe. Um carro de polícia passou a toda velocidade com a sirene tocando alto. Um bêbado passou por Cássia cantarolando uma música incompreensível. Fazia um pouco de frio e Cássia desesperou-se ao lembrar que não havia colocado um casaco na mochila.
– Que frio! – disse a menina, cruzando os braços e se encolhendo toda.
Um carro branco passou por ela e parou mais à frente. Deu marcha à ré e parou perto da menina. Havia um casal de jovens dentro.
– Ei, menina! - disse o rapaz ao volante. – O que você está fazendo sozinha na rua a uma hora dessas?
– Estou indo embora – respondeu Cássia calmamente. Tinha os olhos ingênuos e um sorriso leve nos lábios.
–Indo embora pra onde? – perguntou a moça ao lado do seu namorado.
– Indo embora de casa. Papai e mamãe vão se mudar e eu não quero ir com eles.
– Por quê? – insistiu a moça.
Cássia abaixou a cabeça e não respondeu. Como explicar que não queria se afastar de seus amigos? Pior: como explicar que seus pais não a amavam?
– Quer uma carona para ir embora, menina? ­– ofereceu o rapaz sorrindo.
– Quero.
Cássia não sabia para onde iria, mas já que lhe ofereciam carona era melhor aproveitar. Além do mais, aquele casal era muito simpático. Entrou no carro e se sentou no bando de trás. A moça virou-se para trás e contemplou Cássia por alguns instantes.
– Então você quer ir embora de casa?
– Quero.
– E para onde você vai?
– Ainda não sei.
– Qual é o seu nome?
– Cássia.
– Muito prazer, Cássia. Eu me chamo Mônica. E este é o Ricardo, meu amigo.
Ricardo sorriu e corrigiu:
– Não sou amigo dela, Cássia. Ela está mentindo. Sou o namorado dela.
– Ricardo! Não seja bobo!
– Não estou sendo bobo, Mônica! Estou apenas falando a verdade para a menina.
– Ela é apenas uma criança. Que diferença isso faz pra ela? – Mônica fuzilou o namorado com os olhos.
– Pra ela não sei, mas pra mim faz bastante diferença, querida.
– Você é terrível, Ricardo! – Mônica riu. Voltou-se novamente para trás e já começava a dizer: – Não ligue para o Ricardo, Cássia. Ele é um bo... – Parou ao ver que a menina dormia deitada no banco. – Veja, Ricardo! Ela está dormindo.
– E o que você queria? Crianças dormem cedo, e já passa da meia-noite.
– E pra onde vamos levá-la?
– Pra onde você acha? Vamos levá-la ao lugar certo.
Pela manhã, Cássia acordou em um lugar desconhecido. Era o Juizado de Menores. Não demorou muito para que conseguissem obter dela as informações necessárias para descobrir onde morava e quem eram os seus pais.
Uma hora depois, lá estava Cássia diante de seus pais. Estes a olhavam friamente. Cássia sentiu medo. Na verdade, ela sempre sentia medo na presença deles.
Cássia, timidamente, esboçou um sorriso. Mas o rosto de seus pais permanecia impassível. A menina abaixou a cabeça.
– Vamos embora, Cássia – ordenou Sandra como se estivesse proferindo a sentença de morte a um assassino sanguinário. Levantou-se, seguida por seu esposo, encaminhando-se para a porta. Cássia seguiu-os como um animalzinho obediente.
Cássia nunca se esquecera de quando voltara para a casa de seus pais. Fora a maior surra que levara na vida. Ainda hoje podia lembrar-se perfeitamente dos seus gritos de dor e das suas lágrimas. Naquele dia Cássia tivera a certeza de que seus pais nunca a amaram e nunca viriam a amá-la um dia.
Uma semana depois, Cássia e seus pais finalmente se mudaram para o apartamento.
Era terrível aquela sensação de prisão que Cássia sentia naquele lugar. Sua vontade era sumir dali para sempre. Mas sabia que nunca conseguiria fugir. A primeira tentativa fora trágica e deixara marcas indeléveis em sua alma infantil e já atormentada.
Sua maior diversão naquele apartamento era ficar debruçada à janela do seu quarto vendo os carros e as pessoas indo de um lado para o outro lá embaixo. Era maravilhosa a sensação de estar bem distante de tudo e poder observar tudo como se fosse a dona do mundo.
Às vezes se imaginava voando pelo céu, como os pássaros. Era a liberdade que jamais poderia ter. Ser livre... Voar... Viver de verdade... Ser alguém... Ser ao menos amada...


Cássia assustou-se quando, ainda à janela, deu-se conta de que tinha vinte e um anos e não mais nove. Já havia se passado tanto tempo e se sentia a mesma menina de doze anos atrás, quando era uma prisioneira do seu próprio mundo e não sabia ainda quem era.
– Não sou ninguém... Não sou nada... ­– balbuciou Cássia para si mesma.
Essa afirmação já poderia ser o suficiente para que ela finalmente se decidisse a pular e dar um fim àquela angústia dolorosa.
Sim, ela pularia. Mas... Queria tanto rever seus amigos pela última vez... Revê-los e dizer o quanto os amava e o quanto era especiais em sua vida.
Revê-los... Sim, revê-los como naquele domingo de setembro – uma primavera como nunca mais viria a ter novamente! – quando, após cinco anos de separação, encontrara novamente Raquel, Lucas, Carla e Marcos...
Fora um dos dias mais importantes da sua vida, e Cássia se lembrava como se fosse ontem, e não há sete anos...

Um comentário:

cotidianos da alma disse...

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